Cuiabá, 19 de Janeiro de 2018

HELDER CALDEIRA

Quarta-feira, 03 de Janeiro de 2018, 22h:03 - IMPRIMIR | comentar (01)
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Povo fraco ceva porcos imundos


 

helder caldeira

 

HELDER CALDEIRA, Escritor.

www.heldercaldeira.com.br – helder@heldercaldeira.com.br

*Autor dos livros “Águas Turvas”, “O Eco”, “Pareidolia Política”, entre outras obras.

 

Vedes tu, débil Povo brasileiro, a natureza do (des)concerto: fiada em tua tibieza, a nata da canalhice tupiniquim paulatinamente recompõe a bocarra sedenta à farta teta do Estado, pouco importando o colarinho branco respingado. Não é poesia. É desgraça! Porque quando fraco é o Povo, sua serventia resume-se à ceva de porcos imundos.

 

O que mais há a dizer sobre um Povo miserável que tira comida da própria boca e dos filhos para, passivamente, servi-la aos vagabundos declarados? Fraqueza, covardia, cagaço, inação intelectual, preguiça. No limite, uma espécie de cumplicidade vadia, sempre acompanhada duma música malandra, um gole da braba e um misterioso sorriso cariado. É o tal “jeitinho de ser”, tão defendido por quem pouco presta, bem vendido por oportunistas e muito celebrado por gente equivocada que deslumbra plateias da pseudointelectualidade nacional. Aliás, foi um enganado Darcy Ribeiro quem escreveu, em seu livro O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil, a pérola da nossa genuflexão aos canalhas: “Estamos construindo uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida”. É a tal “sofrência” a justificar uma espécie de esculhambação esperançosa. É a lama!

 

Alguns dos ilustres leitores que até aqui chegaram devem estar fingindo estupefação com a rudeza destas linhas. É compreensível. Não viveríamos tão “alegres” no porão, abaixo do fundo poço, senão pelas mãos da hipocrisia litúrgica que nos garante vestalidade até em zona de rói-couro.

 

Contraporca ao possível assombro de alguns, submeto ao crivo de julgamento das feras “alegres— porque mais sofridas! — os mais recentes e notórios deboches institucionais, propositalmente paridos nesta época do ano, disfarçados pela música alta entre o réveillon e o carnaval. Ei-los à apreciação:

 

O presidente da República edita um decreto para ampliar os métodos de perdão a bandidos condenados, inclusive seus melhores amigos e maiores aliados políticos; um ministro de Estado vai à mídia para criticar o Poder Judiciário por ter enjaulado célebres corruptos; outro ministro de Estado diz que trocar dinheiro de bancos públicos por votos não é chantagem ou crime e, sim, “ação de governo”; o prefeitinho “ex-novidade” prepara comemoração para inaugurar o novo nome de um velho viaduto, homenageando a esposa de um ex-presidente condenado por corrupção; governadores e prefeitos indecentes consideram “investimento” queimar centenas de milhões de reais em festas de final de ano, ao custo de não pagar salários atrasados e deixar seus funcionários à míngua, vivendo de cestas-básicas doadas pela comunidade; e o país descobre que o “feliz ano novo” em Brasília é algo quase feudal, com um imortal coronel determinando quem pode ou não assumir a Polícia Federal e o Ministério do Trabalho, este último terminando nas mãos da filha de um réu confesso e condenado no escândalo do Mensalão.

 

Ao juízo: se meu verbo lhe causa mais espanto do que os supramencionados fatos da vida política brasileira, finja alguma dignidade e sacramente a martelada. Depois podes voltar ao samba... Mas, quando o tamborim silenciar e o ano realmente começar — faz-nos parecer um país riquíssimo, que pode viver em festa... “alegres” festas! —, lembre-se de voltar à ceva dos teus pares.

 

No entanto, aos que estas duras linhas fazem sentido — ou algum sentido —, cumpre conclamar: é chegada a hora de coordenarmos um levante. Não se trata de esperar eleições, fazer abaixo-assinados, tuitaços ou qualquer outra brejeirice nas redes sociais. É tempo de ir às ruas, de marchar rumo aos palácios e sitiar esses falsos monarcas, pilantras de meia-pataca. Precisamos ser verdadeiramente fortes e, sobretudo, ter coragem. Custe-nos lágrimas. Custe-nos dor. Custe-nos sangue.

 

Foi Camões, ao final da 138ª estrofe do Canto III de Os Lusíadas, quem sacramentou: “Que um fraco rei faz fraca a forte gente”. E aqui cumpre reiterar: um Povo fraco ceva porcos imundos. Sejamos, pois, a fortaleza do nosso tempo. Sejamos fortes. Avante e em marcha!

 

 

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